terça-feira, 19 de agosto de 2008

Parapeito (parte 2)


Havia uma ponte adiante e ele pensou que seria mais fácil chegar ali, pular de cabeça na coleção de pedras que aquela terra tinha e acabar de vez com todos os fantasmas do mundo, com todos os dias de pernas cansadas, com os dias em que os olhos mais parecem piscinas, com a respiração de chumbo e, mais do que tudo, com as dúvidas que insistiam em lhe passar a perna. O coração gelado pesava e dizia a direção a ser lançado: 35 passos a frente, meio da ponte, ponto mais alto, 50 metros, para baixo. Isso mesmo. Esse seria o etinerário. Nada o faria parar. Foram 16 passos de convicção... até o tropeço. Tropeço. Mãos raladas do áspero asfalto, pernas bambas (talvez com alguma marca, naquele instante), face direita espremida contra o chão e olhos vidrados nas cores desenhadas no parapeito da ponte, que há 16 passos atrás deveria ter sido o último obstáculo ultrapassado por aquele corpo inútil. O escuro do céu e do asfalto já não eram tão visíveis. Uma outra cor surgira de uma nova forma, dentro de seis pétalas.
"Que amarelo é esse?", perguntou-se. Porque nenhuma cor era assim. Nenhuma cor falava como aquela e arrancava tantas lágrimas de uma só vez e tão rápido, talvez o estado sentimental dele ajudasse, mas definitivamente aquilo era diferente... era, sim. Nenhuma cor gritava daquele jeito. Nenhuma cor tinha aquele silêncio.
" Que formas eram aquelas", admirou-se. Porque todas as formas do mundo mais pareciam rabiscos nervosos e desabilitados de um qualquer coisa, menos desenhista, comparados à harmonia de traços do mais que vivo desenho de parapeito. Era só um desenho de parapeito? O que significava? Quem fez?
"Amarelo?". Claro que não. Não era só amarelo.
"Seis pétalas?". E da mesma forma não eram apenas seis pétalas.
"Quem?", concentrou-se. Quem tinha inventado uma nova cor? Quem tinha salpicado vida em uma cor de uma flor de um parapeito?Aquele que não seria mais ultrapassado como constava no plano.
E a vida daquela cor, daquelas formas, tinham entrado nele como uma fogueira é bem quista em um dia frio (como aquele dia, 16 passos atrás). E se antes ele tinha tropeçado, agora ele estava de pé. Porque alguém estava brincando de Deus:inventando novas cores. Como ele explicaria aquilo?
"Então, eu posso", imaginou. De pé, concluiu os 54 passos restantes e foi em busca de uma nova cor, da sua nova cor. Seria um lilás-fumaça, um verde-maçã, um vermelho-nuvem, um azul-borboleta, um anil-bolha, um nada-aquarela. Não sei, qualquer cor que ainda não existisse, mas que seria dele... só dele.
A ponte ficou para trás, junto com o tropeço, junto das lágrimas, do coração gelado e do parapeito, que nem foi solução... que nunca seria. E agora, como as coisas são... deve haver uma nova cor no mundo. Será um roxo-missanga?

5 comentários:

Raisa. disse...

Tenho medo das minhas convições desabarem, e sempre estou caindo, acabo jogando-me nas pessoas, lanço minhas aflições, engu-lo-as, egoísmo, talvez.

Permito, óbvio e até fico contente de saber que há interesse de alguém que não me conhece nos meus escritos tolos.

Unknown disse...

às vezes é somente necessário termos uma epifania, uma revelação que nos faz perceber, nem que seja por pouco tempo, outros caminhos.

roxo, a cor do mundo,
meu mundo *-*
weeeee

Helena disse...

:) Gostei!!
Beijinho grande

O Profeta disse...

Uma rosa breve
Uma hortênsia de alva cor
A terra molhada pelo sereno
Nos celeste paira um Açor

A madeira verde, a dança do fogo
O embalo do loureiro no vento, o alecrim
Um ribeiro de inquietas águas
Levam o perfume das mágoas em viagem sem fim


Convido-te a sentir a minha paleta de aromas


Mágico beijo

Vanessa V. disse...

Adorei as suas palavras, você escreve tão bem :)

Estou de volta (agora de vez) e, ainda bem que tenho o prazer de poder voltar a visitar esse espacinho, adoro. É bom ter você e as suas palavrinhas de volta.