quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Dias assim...


Sabe o que é? É que existem coisas que deveríamos e queríamos seguir, mas existe um monstro chamado medo dentro de nós, que nos faz acreditar que qualquer desvio da rotina torta das nossas vidas nos feriria como os arames farpados fazem com a carne quente de quem corre para um lugar que não sabe, assim, muito rápido e suado. É algo que evita que as pessoas queiram sentir na vida aquela sensação de bebida fervendo rasgando o corpo em uma tarde de sol e pouco vento, aquela tarde em que não há maciez ou palavras de seda, algo que evita que gritemos com esse tipo de tarde e que passemos o pé para que ela caia de cara e quebre o nariz no chão. Ficamos tão inaptos que nem percebemos as cores à nossa volta, nem ao menos reparamos se há uma borboleta-felicidade perto de nós.O medo nos embebeda de coisa ruim. O medo nos arruina. O medo nos come.... nos come vivos-mortos. Mas, o que se tem a saber é que arames farpados anciosos por carnes cortadas existem por todos os cantos, e se materializam em nomes, rostos e fatos, mas o que não se pode fazer é dá passos atrás quando se pode ter um final de tarde tão mais bonito... bem na nossa frente... desse jeito... meio rosa de alegria...de um dia que nunca vai terminar porque estará guardado em um lugar meio labirinto que é escondido com muito carinho por nós. Dias que nos fazem acreditar que o coração bate para viver e, quem sabe, sorrir. Porque dias assim, são dias de conseqüência...dias que passamos por cima do medo de arames farpados.


Então, pega minha mão... pega e me puxa.






Foto: Camila Gama

terça-feira, 30 de setembro de 2008


E que alegria é essa de ossos fracos e esse "eu" de raízes curtas? Nem pensar, meu bem. Deixe só as marcas dos tornozelos nessa areia de nós todos, é a única coisa que vais deixar: marcas de tornozelos. Porque o resto vai embora para nunca mais, junto de um tom desafinado e uma cor que é suja e, portanto, interessa. É sopa fria sem pimenta, olhar morango e não comer, ir ali só por ir... mas que chato. Dá um tapa nesse mundo tolo, e pega as bolsas para lavar, aquelas bolsas de que tanto andar por aí ficam sujas de nós. Com o nosso sujo cheiro e o cheiro sujo, tudo assim, muito junto e entranhado, como cada nota do Baleiro, como cada pegada do goleiro, e é tudo assim, tudo muito jogado, tudo muito dado, e se é dado, então pega. E segura, logo, porque tudo vai daquele jeito de álcool na pele, volável. Não é assim na química? É assim na vida, ora. Ora se é.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

CASA 4

- Casa 1 ... Casa 2 ... Casa 3... Casa 4! Com certeza é essa- disse enquanto caminhava em direção a uma casa nem grande nem pequena, de cor rosa, grades pretas e janela de vista média. Por um momento ficou com medo das palavras que não sabia falar, sentou na calçada da casa 2 e decidiu que precisava respirar. O nervosismo pareceu crescer, então, dessa vez, a decisão foi pegar um cigarro e desfrutar da química dele. Lembrou que ela poderia estar em casa, preparando a comida de Dominique, sua gata que achara há não muito tempo em uma parada de ônibus no caminho de volta para casa. Poderia estar em qualquer outro lugar. Menos ali, naquele lugar, nervosa por entregar uma carta que não era dela e nem era para ela.
“Que doidice!”, pensou, porque qualquer pessoa poderia ter entrado naquele ônibus, encontrado aquela carta e feito o que quisesse: talvez aberto e lido, aberto e guardado, aberto e jogado, só jogado, talvez tivesse rasgado, e talvez ninguém nem tivesse percebido. Por que ela teve que achar aquele envelope já amarelo, com aquela letra jogada? Era um endereço, uma abreviação (que talvez fosse o nome) e a única certeza: era a casa 4. Por que o suor parecia frio? Por que não tinha mais o controle das pernas? Por que se sentia como uma folha do outono europeu, que se desprende da quietude de uma árvore frondosa? Afinal, “é só tocar a campainha ou dizer ‘Ô, de casa’ e entregar o tal do envelope amarelo”. Não, não era só isso. Ela agora era uma ponte entre duas pessoas, de uma mensagem que ela nem sabia. Uns sorrisos estavam dependendo dela, e lágrimas, provavelmente, também estavam dependendo dela.
- Não pode passar de hoje- falou para o cacto do jardim da casa 2, que já tinha na direção da janela uma baixa e desconfiada senhora, esforçando-se para se manter nas pontas dos pés, no canto mais longe da sala e, assim, manter seus olhos miúdos atentos para continuar vendo qualquer movimento da menina nervosa na calçada, aquela com a bituca de um segundo cigarro na mão [...]





[pedaço do que estou escrevendo]

sábado, 6 de setembro de 2008

6 de Setembro


Eu acho que bebi um pouco demais. Decidi que escreveria qualquer coisa que viesse à cabeça, mas tudo que vem é tontura, é demasiadamente loucura, é cachoeira de mim, são pingos de mim que queimam ao invés de aliviar. Daqueles de coisa lavada, sem se preocupar com passos certos, com pensamentos expressos ou dizeres inversos... me fogem os versos... me ficam os restos! Só existem aquelas palavras soltas como bruxas em vassouras, guardadas em bolsas do dia seguinte... vertigem... e no país das maravilhas a tal da Alice. E tem uma batida de violão que eu não sei, que faz mexer a cabeça e fechar os olhos... talvez deitar... e desenhar letras como em uma carta para cruzar o Brasil... seria bom, mas tudo em que eu posso pensar com propriedade é em um certo morango febril.



foto: Carla Matos

domingo, 31 de agosto de 2008

'vambora'

Eu chuto lata e ando descalça
Eu rio sozinha, estou na estrada
Grito silêncio e engulo barulho
Mas, pode mandar... mande e eu chuto

Chuto para mais longe do que pensarias estar
Não é fácil...
Isso é para quem quer
E para quem sabe jogar

E para quem estala os dedos
E sai correndo na hora
E para quem não perde tempo
E sai gritando: 'vambora'!

Vambora...
Vambora...
Vambora...
E vambora!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Parapeito (parte 2)


Havia uma ponte adiante e ele pensou que seria mais fácil chegar ali, pular de cabeça na coleção de pedras que aquela terra tinha e acabar de vez com todos os fantasmas do mundo, com todos os dias de pernas cansadas, com os dias em que os olhos mais parecem piscinas, com a respiração de chumbo e, mais do que tudo, com as dúvidas que insistiam em lhe passar a perna. O coração gelado pesava e dizia a direção a ser lançado: 35 passos a frente, meio da ponte, ponto mais alto, 50 metros, para baixo. Isso mesmo. Esse seria o etinerário. Nada o faria parar. Foram 16 passos de convicção... até o tropeço. Tropeço. Mãos raladas do áspero asfalto, pernas bambas (talvez com alguma marca, naquele instante), face direita espremida contra o chão e olhos vidrados nas cores desenhadas no parapeito da ponte, que há 16 passos atrás deveria ter sido o último obstáculo ultrapassado por aquele corpo inútil. O escuro do céu e do asfalto já não eram tão visíveis. Uma outra cor surgira de uma nova forma, dentro de seis pétalas.
"Que amarelo é esse?", perguntou-se. Porque nenhuma cor era assim. Nenhuma cor falava como aquela e arrancava tantas lágrimas de uma só vez e tão rápido, talvez o estado sentimental dele ajudasse, mas definitivamente aquilo era diferente... era, sim. Nenhuma cor gritava daquele jeito. Nenhuma cor tinha aquele silêncio.
" Que formas eram aquelas", admirou-se. Porque todas as formas do mundo mais pareciam rabiscos nervosos e desabilitados de um qualquer coisa, menos desenhista, comparados à harmonia de traços do mais que vivo desenho de parapeito. Era só um desenho de parapeito? O que significava? Quem fez?
"Amarelo?". Claro que não. Não era só amarelo.
"Seis pétalas?". E da mesma forma não eram apenas seis pétalas.
"Quem?", concentrou-se. Quem tinha inventado uma nova cor? Quem tinha salpicado vida em uma cor de uma flor de um parapeito?Aquele que não seria mais ultrapassado como constava no plano.
E a vida daquela cor, daquelas formas, tinham entrado nele como uma fogueira é bem quista em um dia frio (como aquele dia, 16 passos atrás). E se antes ele tinha tropeçado, agora ele estava de pé. Porque alguém estava brincando de Deus:inventando novas cores. Como ele explicaria aquilo?
"Então, eu posso", imaginou. De pé, concluiu os 54 passos restantes e foi em busca de uma nova cor, da sua nova cor. Seria um lilás-fumaça, um verde-maçã, um vermelho-nuvem, um azul-borboleta, um anil-bolha, um nada-aquarela. Não sei, qualquer cor que ainda não existisse, mas que seria dele... só dele.
A ponte ficou para trás, junto com o tropeço, junto das lágrimas, do coração gelado e do parapeito, que nem foi solução... que nunca seria. E agora, como as coisas são... deve haver uma nova cor no mundo. Será um roxo-missanga?

terça-feira, 12 de agosto de 2008

"roBOBOtizados"

Quando o mundo mostra a sua face hipócrita o que se tem a fazer é não ligar. E eu não quero que as pessoas pensem que essa é uma posição indolente, apática e da mesma forma hipócrita, mas uma atitude madura e honrosa de quem entende que o mundo não entende que a respiração muitas vezes pesa por motivos que apenas um minuto de pessoas irá conhecer, viver e, até talvez, escrever, por motivos que são esquecidos, inferiorizados, marginalizados em favor de um sonho humano-robótico idiota e idealizado. Se o mundo escolheu um estereótipo a ser seguido, a ser respeitado e a ser a imagem de uma dignidade equivocadamente maior e, portanto, mais valiosa do que as demais existentes, o que eu faço é mentalmente (ou verbalmente, quando se trata de um caso à parte) pedir para que todas essas palavras ensaiadas e esteticamente surpreendentes de pessoas que não entendem, claro, sejam introduzidas ,na velocidade da luz, garganta abaixo de cada uma delas. Porque ninguém está suposto a ferir outras pessoas do jeito que achar conveniente. Ah... mas, o mundo quer? Sério? E daí? Porque o mundo também quer que tu não acredites em ti; o mundo não quer também que saibas que a fome, no século XXI, mata mais do que matou em qualquer momento anterior; que os países desenvolvidos, concentrando 29% da população mundial, controlam os outros 71% da população; que 70% da energia produzida no mundo é destinada a esse número: "29%"; que laboratórios multinacionais usam da fragilidade de animais e pessoas economicamente desfavorecidas para usá-las como cobaias de remédios de efeitos colaterais desconhecidos e produtos estéticos ,para a manutenção do estereótipo idealizado pelo nosso "doce" capitalismo (eu preciso dizer que estou sendo irônica?). O mundo não quer que saibas que existem pessoas que recusariam tudo o que ele (esse mundo) ofereceu... por ti; que existem coisas além de dinheiro e glória; que existem princípios além de unidades monetárias. Mas, sabe o que tem de bonito nisso tudo? É saber que, mesmo sendo pouco, existem pessoas que entendem e que lutam de alguma forma contra isso. Eu não conheço a maioria das pessoas que visitam esse blog e dos que eu visito, as pessoas que comentam, ou as que não comentam, mas que me procuram pelo orkut, mas eu acredito e ligo em/para vocês, porque assim como eu... sei que vocês não ligam para o mundo...

Ou ligam?