E que alegria é essa de ossos fracos e esse "eu" de raízes curtas? Nem pensar, meu bem. Deixe só as marcas dos tornozelos nessa areia de nós todos, é a única coisa que vais deixar: marcas de tornozelos. Porque o resto vai embora para nunca mais, junto de um tom desafinado e uma cor que é suja e, portanto, interessa. É sopa fria sem pimenta, olhar morango e não comer, ir ali só por ir... mas que chato. Dá um tapa nesse mundo tolo, e pega as bolsas para lavar, aquelas bolsas de que tanto andar por aí ficam sujas de nós. Com o nosso sujo cheiro e o cheiro sujo, tudo assim, muito junto e entranhado, como cada nota do Baleiro, como cada pegada do goleiro, e é tudo assim, tudo muito jogado, tudo muito dado, e se é dado, então pega. E segura, logo, porque tudo vai daquele jeito de álcool na pele, volável. Não é assim na química? É assim na vida, ora. Ora se é.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
E que alegria é essa de ossos fracos e esse "eu" de raízes curtas? Nem pensar, meu bem. Deixe só as marcas dos tornozelos nessa areia de nós todos, é a única coisa que vais deixar: marcas de tornozelos. Porque o resto vai embora para nunca mais, junto de um tom desafinado e uma cor que é suja e, portanto, interessa. É sopa fria sem pimenta, olhar morango e não comer, ir ali só por ir... mas que chato. Dá um tapa nesse mundo tolo, e pega as bolsas para lavar, aquelas bolsas de que tanto andar por aí ficam sujas de nós. Com o nosso sujo cheiro e o cheiro sujo, tudo assim, muito junto e entranhado, como cada nota do Baleiro, como cada pegada do goleiro, e é tudo assim, tudo muito jogado, tudo muito dado, e se é dado, então pega. E segura, logo, porque tudo vai daquele jeito de álcool na pele, volável. Não é assim na química? É assim na vida, ora. Ora se é.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
CASA 4
- Casa 1 ... Casa 2 ... Casa 3... Casa 4! Com certeza é essa- disse enquanto caminhava em direção a uma casa nem grande nem pequena, de cor rosa, grades pretas e janela de vista média. Por um momento ficou com medo das palavras que não sabia falar, sentou na calçada da casa 2 e decidiu que precisava respirar. O nervosismo pareceu crescer, então, dessa vez, a decisão foi pegar um cigarro e desfrutar da química dele. Lembrou que ela poderia estar em casa, preparando a comida de Dominique, sua gata que achara há não muito tempo em uma parada de ônibus no caminho de volta para casa. Poderia estar em qualquer outro lugar. Menos ali, naquele lugar, nervosa por entregar uma carta que não era dela e nem era para ela.
[pedaço do que estou escrevendo]
“Que doidice!”, pensou, porque qualquer pessoa poderia ter entrado naquele ônibus, encontrado aquela carta e feito o que quisesse: talvez aberto e lido, aberto e guardado, aberto e jogado, só jogado, talvez tivesse rasgado, e talvez ninguém nem tivesse percebido. Por que ela teve que achar aquele envelope já amarelo, com aquela letra jogada? Era um endereço, uma abreviação (que talvez fosse o nome) e a única certeza: era a casa 4. Por que o suor parecia frio? Por que não tinha mais o controle das pernas? Por que se sentia como uma folha do outono europeu, que se desprende da quietude de uma árvore frondosa? Afinal, “é só tocar a campainha ou dizer ‘Ô, de casa’ e entregar o tal do envelope amarelo”. Não, não era só isso. Ela agora era uma ponte entre duas pessoas, de uma mensagem que ela nem sabia. Uns sorrisos estavam dependendo dela, e lágrimas, provavelmente, também estavam dependendo dela.
- Não pode passar de hoje- falou para o cacto do jardim da casa 2, que já tinha na direção da janela uma baixa e desconfiada senhora, esforçando-se para se manter nas pontas dos pés, no canto mais longe da sala e, assim, manter seus olhos miúdos atentos para continuar vendo qualquer movimento da menina nervosa na calçada, aquela com a bituca de um segundo cigarro na mão [...][pedaço do que estou escrevendo]
sábado, 6 de setembro de 2008
6 de Setembro
Eu acho que bebi um pouco demais. Decidi que escreveria qualquer coisa que viesse à cabeça, mas tudo que vem é tontura, é demasiadamente loucura, é cachoeira de mim, são pingos de mim que queimam ao invés de aliviar. Daqueles de coisa lavada, sem se preocupar com passos certos, com pensamentos expressos ou dizeres inversos... me fogem os versos... me ficam os restos! Só existem aquelas palavras soltas como bruxas em vassouras, guardadas em bolsas do dia seguinte... vertigem... e no país das maravilhas a tal da Alice. E tem uma batida de violão que eu não sei, que faz mexer a cabeça e fechar os olhos... talvez deitar... e desenhar letras como em uma carta para cruzar o Brasil... seria bom, mas tudo em que eu posso pensar com propriedade é em um certo morango febril.
foto: Carla Matos
foto: Carla Matos
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