quinta-feira, 17 de julho de 2008

Perfil

Jeans rasgados, um all star meio velho e muita história para contar...Ninguém vê, mas ela carrega palavras de concreto nas costas e uma ferida no meio do peito, coberta pela sua pele despigmentada... o que se vê é o resto dela... falho, cansado, impedindo que o resto maior se mostre. Senta como se não quisesse nada, mas o que ninguém repara é que ela quer tudo. Machuca os pulmões gritando o contrário que transparece ser, quando tudo isso é para deixar em silêncio o igual que ela tem. Joga o cabelo para trás, sob a noite estrelada e espera que todos a sigam, e quando não acontece trata como rato o organismo, fica em pé, andando de um lado para o outro, perguntando-se o que foi de errado daquela vez. Palavras diferentes das dela parecem facas no coração, doem tanto que não aceita que existam, logo finge que não as ouve. Quer saber? Ela ouve cada uma delas. Ouve e grava. Grava na memória. Guarda cada "eu te amo" como troféu, mas o engraçado é que não acredita em nenhum deles. Talvez tenham levado um pedaço dela, talvez ela tenha jogado em uma rua qualquer, tanto faz, ela nunca liga não é? Não, é o que ela quer que acreditem. O que ela busca nas pessoas? É o que ninguém faz idéia, nem mesmo eu, não eu. Pode-se pensar que ela tem todas as respostas, mas, definitivamente, o mais próximo dela é “quase nenhuma” . Ela fala de um jeito que parece “não faça uma oração por mim”, mas olha como “preciso de todas as orações”. Faz da sua garganta um vulcão, que espele palavras-larvas que queimam quase todos, mas que primeiro a queima, e que sempre queima. Ela nunca desiste. Ela nunca pára. Ela não pode parar. Ela é mais morta do que já é quando pára. Quantos ela testa? Por que testa? Até quando testa? Queima a testa, que coisa! Olhos caídos, piadas até bem-vindas, opiniões relutantes e sorrisos-disfarces. Não tem flor nos cabelos, nem algemas nas mãos, mas faz cantos de morte. Ela insola, ela venta, mas ela chove? Tem joelhos ralados de tanto cair, mas faz questão de vestir calças para cobrí-los, mas lembram dos jeans rasgados? Isso já foi externalizado, já foi, “menina-ser”. Ela está muito acima. Ela está muito abaixo. Ela está agora. Ela está depois. Mas, até quando? Onde está? Ela anda pelo caminho batido do bosque que ela mesma cuidou para que não crescesse, pegou cada flor e as esmagou, guardou as pétalas para lembrar. Roupas longas para não deixar que o sol a toque. Ela tem o sol se pondo. Ela tem a escuridão. Tem o que tem na escuridão. Talvez por isso tenha aprendido a se pôr e a absorver a luz antes do pôr que aprendeu. Ela tem o tempo. Ela perde o tempo. Mas, corre atrás, acredito que sim. Ela está sã, agora? Porque ela é do tipo que gostaria de ver o chão passar muito rápido por debaixo das pernas. Ela pegou as pedras da beira de um rio, guardou nos bolsos e na bolsa, para ver se tudo aquilo pesava o suficiente para esquecer o peso do coração. Ela senta de novo, conversa com os tênis e amarra os cadaços. Tira o relógio. Agora, ela tirou o tempo. Olha para além das estrelas. Não sei para onde. Deve levar algum tempo para voltar. Pulmões... fracos pulmões. Não é a única fraqueza que ela tem. E sabe, não é que ela não queira dividir o coração. Ela não quer dividir aquela ferida. Deve doer demais para existir um jeito que doa pela metade.
MAS, EU TENHO QUE ADMITIR. ELA É A ÚNICA QUE ANDA COMO SE NÃO ESTIVESSE CHOVENDO
(por opiniões de certas pessoas, esse final pode, daqui um tempo, ser mudado)

Um comentário:

Vanessa V. disse...

Gosto tanto das suas palavrinhas minha querida :)